segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Miguel

Texto de hoje:

Miguel

Quem me conhece sabe bem de minha memória  falha.  Demasiado p minha idade, tenho 38 anos , e esse desacerto que muito me atrapalha,  por vezes, me diverte, quando abro um sorriso após ler algo que eu mesma escrevi , por exemplo...
Atribuo esses lapsos  à estafa, ao cansaço, à pouca saúde mental enfim...  tenho uma mente proletariada adoecida, que me obriga por ansiedade ou traumas, a produzir o tempo inteiro. 
Esqueço tudo. O que me faz, inclusive uma ótima confidente . 
Com o tempo, percebi dificuldades com arranjos temporais ( planejar horários, calendários  e calcular lógicas dessa natureza são, para mim, um suplício.) E acompanhamento de fofocas que começam com: "a prima do irmão do meu cunhado" por exemplo, me tomam um cálculo divertido  e com isso perco a história. 
Existem, no entanto, um leque de coisas que não me deixo esquecer. 
Obviamente, meu primeiro amor e homem, o dia do nascimento de meus filhos,  dia da assinatura da escritura de minha casa, encontros com meu marido, enfim... essas coisas bem ligadas ao comum e ao espírito burguês, que não devemos esquecer, Miguel, como chamo meu cérebro, guarda bem. 
Fatos desgostosos, desamores,  atritos e outros tropeços, bem como histórias engraçadas. 
Entendi que coisas geralmente ligadas à aprendizados , eu não esqueço.  Tipo moral da história, sabe? O que você aprendeu com isso?  Esse tipo de coisa, Miguel também guarda... penso que ele é um tanto rancoroso... e  isso faz de mim uma pessoa fiel, que atura pouquíssimos erros das pessoas. 
Meu processo reflexivo é pesado e e tem piorado, à medida que estudo e escuto  mais as pessoas.
De todas essas memórias, as ligadas à profissão que escolhi me encantam eternamente.
Assistir uma criança ler comigo, acompanhar processos logicos e argumentos sendo construídos porque fora inserido o pensamento crítico e, sempre a alegria de abraços e carinhos  me tomam tempo nesse envelhecer cerebral... bem como físico, pois meu fascínio de ver ex alunos grandes indo ainda me abraçar depois de velha, arranca_ me sempre um sorriso e uma sensação de escolhas certas.
É impossivel, afirmo, ser professor e não se emocionar com esses fatos comuns à todos nós. 
Dias doídos, pois acompanhamos crianças sofridas também, ganham uma gaveta aqui no arquivo de Miguel .  São dias que tudo o que você quer é pegar aquela criança, família ou situação e, sei lá... apagar.  Mas, não endurecemos... a empatia é uma construção necessária ao magistério.  
Uma lembrança, no entanto, nunca me falha. É como se ela espreitasse sempre, junto às minhas perturbações e coisas obscuras: o dia em que nossa classe apanhou.
Esse dia está marcado em minha mente e retorna frente à qualquer banalização de absurdos. 
retorna diariamente ao ouvir que temos mais de mil brasileiros mortos por dia , mas que a economia tem que funcionar. Retorna ao ouvir que servidores são vagabundos e que professores ensinam sexo em suas salas de aulas. E penso imediatamente, na naturalização de violências. Mas esse dia foi físico.  Esse dia rompeu uma barreira muito clara e simbólica para essa sociedade. Mostrou que a razão e o direito não estão acima da brutalidade, do ódio e da truculência.  Que a barbaridade vence sim a sabedoria e o esclarecimento. Enfim que, numa dualidade abusivamente cristã, o mal vence.
Que os professores não se esqueçam desse dia. 
Que eles não se esqueçam nas mãos de quem estava a caneta que permitiu esse ato.
Que não nos esqueçamos jamais da necessidade de nossa função dentro desse quadro.
Enfim, que, ao anunciar greves e direitos, estejamos todos preparados também, se necessário, com a palmatória.

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