Texto de hoje:
Miguel
Quem me conhece sabe bem de minha memória falha. Demasiado p minha idade, tenho 38 anos , e esse desacerto que muito me atrapalha, por vezes, me diverte, quando abro um sorriso após ler algo que eu mesma escrevi , por exemplo...
Atribuo esses lapsos à estafa, ao cansaço, à pouca saúde mental enfim... tenho uma mente proletariada adoecida, que me obriga por ansiedade ou traumas, a produzir o tempo inteiro.
Esqueço tudo. O que me faz, inclusive uma ótima confidente .
Com o tempo, percebi dificuldades com arranjos temporais ( planejar horários, calendários e calcular lógicas dessa natureza são, para mim, um suplício.) E acompanhamento de fofocas que começam com: "a prima do irmão do meu cunhado" por exemplo, me tomam um cálculo divertido e com isso perco a história.
Existem, no entanto, um leque de coisas que não me deixo esquecer.
Obviamente, meu primeiro amor e homem, o dia do nascimento de meus filhos, dia da assinatura da escritura de minha casa, encontros com meu marido, enfim... essas coisas bem ligadas ao comum e ao espírito burguês, que não devemos esquecer, Miguel, como chamo meu cérebro, guarda bem.
Fatos desgostosos, desamores, atritos e outros tropeços, bem como histórias engraçadas.
Entendi que coisas geralmente ligadas à aprendizados , eu não esqueço. Tipo moral da história, sabe? O que você aprendeu com isso? Esse tipo de coisa, Miguel também guarda... penso que ele é um tanto rancoroso... e isso faz de mim uma pessoa fiel, que atura pouquíssimos erros das pessoas.
Meu processo reflexivo é pesado e e tem piorado, à medida que estudo e escuto mais as pessoas.
De todas essas memórias, as ligadas à profissão que escolhi me encantam eternamente.
Assistir uma criança ler comigo, acompanhar processos logicos e argumentos sendo construídos porque fora inserido o pensamento crítico e, sempre a alegria de abraços e carinhos me tomam tempo nesse envelhecer cerebral... bem como físico, pois meu fascínio de ver ex alunos grandes indo ainda me abraçar depois de velha, arranca_ me sempre um sorriso e uma sensação de escolhas certas.
É impossivel, afirmo, ser professor e não se emocionar com esses fatos comuns à todos nós.
Dias doídos, pois acompanhamos crianças sofridas também, ganham uma gaveta aqui no arquivo de Miguel . São dias que tudo o que você quer é pegar aquela criança, família ou situação e, sei lá... apagar. Mas, não endurecemos... a empatia é uma construção necessária ao magistério.
Uma lembrança, no entanto, nunca me falha. É como se ela espreitasse sempre, junto às minhas perturbações e coisas obscuras: o dia em que nossa classe apanhou.
Esse dia está marcado em minha mente e retorna frente à qualquer banalização de absurdos.
retorna diariamente ao ouvir que temos mais de mil brasileiros mortos por dia , mas que a economia tem que funcionar. Retorna ao ouvir que servidores são vagabundos e que professores ensinam sexo em suas salas de aulas. E penso imediatamente, na naturalização de violências. Mas esse dia foi físico. Esse dia rompeu uma barreira muito clara e simbólica para essa sociedade. Mostrou que a razão e o direito não estão acima da brutalidade, do ódio e da truculência. Que a barbaridade vence sim a sabedoria e o esclarecimento. Enfim que, numa dualidade abusivamente cristã, o mal vence.
Que os professores não se esqueçam desse dia.
Que eles não se esqueçam nas mãos de quem estava a caneta que permitiu esse ato.
Que não nos esqueçamos jamais da necessidade de nossa função dentro desse quadro.
Enfim, que, ao anunciar greves e direitos, estejamos todos preparados também, se necessário, com a palmatória.
Nenhum comentário:
Postar um comentário