Engraçado observar como que a falta de consciência de classe impacta muitos aspectos da nossa vida, para além do trabalho em si, que é onde esse conceito é formado.
Basicamente, só para esclarecimento rápido de quem lê, consciência de classe é você saber seu lugar social, entendendo que se você vende sua mão de obra, seja ela intelectual ou braçal, você é proletariado e pobre, e se você ganha dinheiro dormindo, você é rico. Sim. Isso facilita muito a autoidentificação desse local.
Agora que você já fez sua auto análise e já se identificou como pobre ou rico, (e na verdade tenho certeza que, se você se identificou como pobre, somente, segue lendo … o rico parou lá na primeira frase em :”consciência de classe” e só começou a ler porque pensou que eu fosse defender que “tem que trabalhar na pandemia”) podemos continuar aqui traçando a lógica que é intrigante, no mínimo.
Quero analisar o proletariado que, é tão preso à sua rotina de trabalho, é tão escravo do capital, tão, tão… que defende que todos devem trabalhar normalmente (e sua rotina, provavelmente, contém aglomerações e inúmeras possibilidades de contágios, seja nos transportes públicos que acessa para o local de trabalho em horários, agora normalizado ou seja, retornando à picos de movimento, seja com contato com assintomáticos, ou com objetos também assintomáticos) e ataca o lazer. Sim… porque o lazer é a vagabundagem, a vadiagem, o prazer… e gente… entendam: Proletariado à serviço do capital não pode ter isso. Não pode ter prazer, não pode ser um vadio. Tem que ser trabalhador. Somente. E se é trabalhador, nessa dualidade que também servimos graças à religião (mas isso é assunto para outro dia) não pode ser vadio, não pode vagabundiar! Inclusive chama-me muita atenção, em entrevistas principalmente em áreas “conflagradas” onde acontecem mortes violentas e truculentas pelos “representantes do Estado” (ops… outro assunto para outro dia), que em entrevistas, geralmente quando morre um inocente, a defesa primordial dele é que era “trabalhador” o que quer NECESSARIAMENTE dizer que não era um vagabundo (lembro ainda que vagabundo é gíria de pessoas que são atreladas à criminalidade. Nossa linguagem será assuntos de muitos outros dias).
A crise de consciência é tão grande que, se eu trabalhar a semana inteira e no sábado à tarde, ao comprar pão, parar e beber uma cerveja em um bar (com medidas restritivas aplicadas porque não é de noite, nem no Leblon), e apresentar sintomas logo depois, eu terei a CERTEZA que me infectei na hora da cerveja. O mesmo exemplo pode ser aplicado para praias e demais movimentos de lazer.
Vejam: não defendo a aglomeração, nem que as pessoas parem de se proteger, muito pelo contrário, defendo que se elas não podem ter lazer, que também não possam trabalhar. E nem é esse o objetivo deste texto.
Quero que reflitamos acerca de nossas amarras proletárias, que observemos nossa dependência psico social do capital e de sua maquinaria.
Lembro de Chaplin em Tempos modernos, que seu sonho era a vadiagem. Era não trabalhar, não ser sugado pelas máquinas que o fizeram na cena épica desse filme perfeito e a pergunta que cravo é: Porque nós mesmos não nos damos o direito de vadiar, quando devemos sempre, trabalhar?
Nenhum comentário:
Postar um comentário