segunda-feira, 22 de março de 2021

Ciência pra quê?

O brasileiro conseguiu montar, em seu imaginário, um vírus vagabundo, que circula somente em noitadas, bares e boates. Um vírus subversivo, que ama festas clandestinas e bailes funks proibidos.
Dessa forma, obviamente, ele não estará nos ônibus lotados de manhã ou no fim da tarde... aliás, tampouco no trabalho em si. Há de se respeitar homens de bem que têm família para sustentar, ora!
Nessa lógica, mercados, farmácias, lojas em geral estão também salvos desse vagabundo, porque todos ali estão atrás de subsistência, ou como mão de obra ou como consumidores... deve ser essa a razão dos afrouxamentos de protocolos sanitários nesses locais, inclusive. Para que, senhores, passar álcool em gel e respeitar lotação em mercados, se o vírus não está lá?
(Deve estar se enroscando em alguma vagabunda pelas ruas, chutando latinhas, numa roda de samba... isso sim!)
Para que usar máscara enfim né... se sou cidadão de bem, pago meus impostos...
O vírus anda em manifestações culturais populares; aquelas desprezadas pela burguesia, porque além de desocupado, o vírus não carrega um pingo de gosto pela cultura. Ele não está nos museus e centros culturais; nem em casas de chá e restaurantes onde podemos apreciar uma boa refeição, com um bom vinho e música erudita.
O vírus, como tudo que é ruim no imaginário brasileiro, é preto, pobre, macumbeiro, malandro e boêmio. Personificado como Zé pilintra, como o povo da rua.
O vírus é o diabo.
Se você, portanto, precisar de ajuda... se estiver possuído por esse encosto, vá até a igreja neo pentecostal mais próxima e peça que o pastor retire o covid de seu corpo.

SAI AGORA, COVID! SAIA DESSE CORPO QUE NÃO LHE PERTENCE" 

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